Porto Literário continua navegando pelas páginas de Uma história do romance de 30, livro do historiador Luís Bueno que, em certo momento, caracteriza o romance de identidade portuária Navios Iluminados (Ranulpho Prata, 1937) como representante das obras do período final da década analisada, quando os autores deixavam para trás certo otimismo da literatura proletária em troca da constatação das dificuldades de mudanças sociais. O autor chamou esse momento de “nova dúvida”. Vale repetir da semana passada a caracterização de Navios Iluminados feita pelo professor:

 

Navios Iluminados não vê para o problema da pobreza soluções fáceis – aliás, nem fáceis nem difíceis: as soluções simplesmente não se apresentam no romance de 1937.

 

Na ocasião, a coluna se prestou a uma conversa com a obra de Bueno e tenta manter o diálogo hoje também:

 

I

O professor da Universidade Federal do Paraná desconfia que o romance de Ranulpho Prata não tenha muitos leitores e, para apresentá-lo, recorre à proximidade narrativa entre ele e Vidas secas (Graciliano Ramos, 1938), pelo texto seco e preciso dos dois romances. Hoje, citamos outra comparação de Bueno entre os dois romances, desta vez quanto ao componente histórico das duas obras, o movimento pendular entre breves momentos de esperança frustrados pela irrealização de qualquer mudança:

 

Esse movimento pendular – que, como se verá, está também na base da estrutura do mais importante romance do final da década (e talvez de toda a década), Vidas Secas –, entranhado no desenvolvimento das ações do romance, dá uma representação artística exemplar ao espírito daqueles anos em que uma guerra decisiva parece inevitável e os ideais que pensavam uma sociedade pós-liberal justa têm que ser adiados.

 

Porto Literário havia aproximado as obras por outra ligação, o parentesco literário entre José Severino de Jesus e Fabiano, os protagonistas dos romances do cais e do sertão. Os dois são retirantes: um, no sertão, de fazenda a fazenda; outro, migrante, no cais do porto. Os dois também partilham uma inabilidade com as coisas dos homens, são desajeitados no manejo social. São personagens característicos da década em que a narrativa ficcional buscava a expressão do outro, do pobre, aquele que não escreve. Tiramos também do livro de Luís Bueno como isso ocorre em Navios Iluminados:

 

O terceiro capítulo, um dos mais bem acabados do livro, mostra como o pêndulo se move com dificuldade no caminho da esperança e da felicidade. A primeira dificuldade depois de tudo parecer assegurado [a vaga no trabalho] é enfrentar o mau humor do funcionário responsável, cansado de atender a tantas solicitações. Vencida essa fácil contrariedade, lá vêm outras. São necessários papéis e fotos, que custam mais de cem mil-réis. É preciso conseguir dinheiro emprestado a juro alto, portanto. É preciso fazer um exame médico e arranjar algum desembaraço para se deixar fotografar pela primeira vez. Essas idas e vindas de Severino, narradas com vagar quase mórbido, fazem com que o tempo passe lento na narrativa, especialmente por contrastar com o rápido avançar de dois meses nos capítulos anteriores. A distância que o narrador mantém do universo do personagem, jamais traído em qualquer gesto de solidariedade ou observação que indique algum julgamento, contribui para que se construa esse tipo de efeito, já que é como se nada separasse a aflição do protagonista do leitor.

 

Uma interessante especulação seria imaginar se Ranulpho Prata e Graciliano Ramos liam os livros um do outro ou até se mantinham algum contato mais estreito já que no espaço de um ano publicariam suas principais obras pela mesma editora, a José Olympio.

 

II

Outro ponto comum é a comparação que se faz entre os Navios Iluminados e Dentro da vida, segundo romance de Prata, de 1922. Porto Literário destacou uma vez a diferença entre os dois romances: para dar corpo a uma história social com a complexidade de uma época de “dúvida”, só um centro como Santos, principal ponto de comércio exterior nacional, com seus quilômetros de cais e toneladas de carga. A cidade do interior de Minas Gerais em que o protagonista de Dentro da vida começa a exercer a atividade médica não oferece maior complexidade do que uma história de amor entre o médico e uma jovem da família mais rica da cidade.

 

Nos romances do interior, poucos são personagens horizontais, isto é, com a mesma idade. Tanto que no caso são apenas dois, formam um casal. Na cidade do interior, as relações são verticais, entre família, pais e padres de um lado e trabalho, amigos e antagonistas do outro. É nesse segundo cenário que a literatura consegue apreender a complexidade da modernização sem modernidade típica da América Latina e transcrevê-la em uma narrativa que permite o contato direto entre o leitor e a “aflição do protagonista”.

 

Já Luis Bueno trata do desenvolvimento da nova dúvida entre os dois romances. Enquanto aos pobres rurais da história de 1922 ainda resta aguardar os frutos da “terra generosa que tudo dá”, aos de 1937 só resta morrer nos porões dos chalés, sem ar nem luz, “duas coisas que Deus botou no mundo até pros bichos”. Enquanto há esperança no primeiro; no segundo, ela ganha um “caráter de preparação não para o alívio, mas para o sofrimento”.
As observações sobre a obra de Prata, ainda que as de Bueno sejam bem melhor formuladas, acabam se completando e ampliando o registro das relações entre literatura e história neste romance de identidade portuária:

 

Navios Iluminados é um dos mais significativos romances do final da década. Embora não tenha tido nada o sucesso de Os Corumbas – e em grande medida porque o romance social entusiasmava menos nesses tempos de dúvida que ele próprio contribui para definir –, o romance de Ranulpho Prata tem todas as suas qualidades, acrescidas da escrita madura de um autor já veterano, que conhecia bem seus meios de expressão. Embora não seja um livro de todo desconhecido – já teve três edições, a última de 1996 – permanece menos lido do que deveria ser.

 

Quem sabe agora Navios Iluminados seja elevado à categoria de clássico e entre no panteão da literatura nacional, aquilo que alguns chamam de cânone.

 

Referências:

Luís Bueno. Uma história do romance de 30. São Paulo: Editora Unicamp e Edusp, 2006.

Ranulpho Prata. Navios Iluminados. Rio de Janeiro: José Olympio, 1937.

Graciliano Ramos. Vidas Secas. 56ª edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 1938.
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