Um tema que se presta à ilustração das relações entre história e ficção é o chamado boom da literatura latino-americana nos anos 60 do século passado, momento em que surgiu – estourou seria o caso – a narrativa de nomes como o argentino Júlio Cortázar (1914-1984) e o colombiano Gabriel García Márquez (1928-).

O primeiro, por exemplo, apresentou ao mundo o romance como jogo de montar, O jogo da amarelinha, de 1963, e o outro foi quem escreveu o romance clássico do realismo mágico, 100 anos de solidão, de 1967, que garantiu ao autor o prêmio Nobel de literatura de 1982.


I
Generalizando, muito do boom se deve ao esgotamento do romance na Europa enquanto forma narrativa no período do pós-guerra. O espaço de invenção e renovação literária acabou sendo assim preenchido pelos narradores latino-americanos, cujo coletivo atingia a maturidade depois da modernização provocada pelas vanguardas dos anos 20 – o antropofagismo da Semana de Arte Moderna de 22 no Brasil ou o movimento ultraísta na Argentina, por exemplo.

O subcontinente atinge nos anos 60 o que Antônio Cândido, talvez o principal nome da crítica literária no Brasil, chamou de “sistema literário”, isto é, a união sistemática de produção literária, distribuição de livros e leitura, leiga ou crítica.

A alcunha realismo mágico pode enganar, todavia, porque reúne no mesmo balaio estilos tão diferentes como os dos dois autores acima mencionados, mas também a narrativa de outros escritores, como o cubano Alejo Carpentier, o peruano Mario Vargas Llosa, o mexicano Juan Rulfo e até o brasileiro João Guimarães Rosa.

Ainda que revele a identidade de parte da produção latino-americana do período, a expressão, podemos arriscar, é mais uma marca de exportação de obras literárias para a Europa – assim como Cafés do Brasil. Seria um tipo de selo de qualidade garantindo ao leitor do velho continente a certeza de encontrar algo novo, e ainda por cima com o cheirinho de exotismo que exala esta parte da América.

II
A crítica ao boom começa logo na década seguinte. Em 1976, por exemplo, a editora El Mangrullo, de Buenos Aires, publica Narradores de América, uma seleção de 12 autores ligados de alguma forma ao tal do boom, entre eles os brasileiros Carlos Drummond de Andrade e o já citado Guimarães Rosa (só o fato de terem sido traduzidos para a América de fala espanhola já demonstra um aspecto da formação do sistema literário do subcontinente). Logo em seu início, a introdução do trabalho mostra o papel da comunicação de massa na difusão destes autores:

 

“Em poucos anos – ou meses –, os escritores deste continente conseguiram o que nunca puderam seus antecessores: freqüentar cotidianamente a primeira página dos jornais, ser moeda corrente em todos os meios de comunicação de massa, esgotar edições em sua própria terra e conseguir para a América Latina uma fama internacional distinta da que por tradição havia sido dada por charadas fáceis, pelas apetecíveis matérias-primas e outras excelências”.

 

A introdução também destaca, sem mencionar o termo, a formação do sistema literário da região ao registrar uma frase do poeta e ensaísta mexicano Otávio Paz. Para ele, naquele momento pela primeira vez os latino-americanos podiam se sentir “contemporâneos de todos os homens”.

 

Para os autores da edição, a extinção do boom – também forjada na cultura de massa – acabou sendo benéfica porque permitiu que a ficção do subcontinente se desadjetivasse – se me permitem a palavra – e passasse a ser encarada apenas como literatura cuja qualidade pôde, além dos modismos, ganhar terreno no sistema literário mundial e “jogar suas verdadeiras cartas, muito menos ostentadoras ainda que muito mais decisivas que antes”.

A diversidade narrativa e a ocasião histórica do boom latino-americano são os temas que Porto Literário volta a explorar na próxima semana. Até lá.


Referências:

Vários autores. Narradores de América. Coleção Letra Aberta, nº. 2. Buenos Aires, Argentina: Editorial El Mangrullo, 1976.
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