A arte é uma das melhores formas de contrapor, ela nos deixa livres, nos deixa flutuar, viajar por esse mundo tão quadrado, tão segmentado, ensina a indígena Rosi Waikhon.

O Arctic Amazon Symposium 2019 se realizou em meados de setembro em Toronto, no Canadá, reunindo indígenas do Ártico e da Amazônia com o objetivo de articularem estratégias comuns para o que chamaram de “novo fim do mundo”. Artistas, ativistas e cientistas indígenas em busca do direito de continuar a sentir o frio do Ártico (referindo-se ao aquecimento global) e de se sentir a proteção da floresta Amazônica. O encontro entre o Norte e o Sul, da tundra e da floresta tropical, de diferentes territórios e experiências parecidas, de respeito à sabedoria ancestral e à espiritualidade, de empatia às resistências e lutas por existir. Um grupo de artista indígenas do Brasil, como Rosi Waikhon, Jaider Esbell, Emerson Munduruku e Denilson Baniwa, esteve presente representando a Amazônia.

Rosi 1Rosi Waikhon na floresta amazônica. Fotos: Arquivo pessoal.

Portogente entrevistou Rosi Waikhon, indígena da região do Alto Rio Nego da Amazônia, ativista, artista e doutoranda em Antropologia Social na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que levou sua poesia e fez perfomance da Yepa Buro (Avô do universo, Avô da terra, Um ser não criado), que cria os quatro trovões e pede a eles que criem a humanidade. Confira a conversa!

Rosi 2Portogente - Quem é a Rosi mulher, indígena, acadêmica e artista?
Rosi – Costumo me identificar como indígena do povo Piratapuia, da região do Alto do Rio Negro, gosto de ser chamada por Rosi Waikhon, que é meu nome artístico e sou essa pessoa que veio dessa região e de um povo que tem história, de um povo que tem na alma o amor pela terra, pela água, pelas montanhas, pelos animais, que tem respeito a essa natureza que foi criada quando o nosso povo chegou a esse mundo. Sou essa pessoa com os conhecimentos dos meus avós, das gerações bem lá atrás, que nos disseram que nós viemos para cá, que toda uma narrativa de um mundo onde foi deixado esses lugares sagrados, como a mata. Foi deixado a forma de usar a terra, como cuidar dela e dos lugares, do respeito aos rios, às montanhas. O respeito quando pegamos um animal, que nos alimenta, a gente não pega de qualquer forma. Embora esteja hoje na academia eu não perdi esses valores, pois são tão importantes quanto os conhecimentos que estou compartilhando na Universidade. Então eu sou essa pessoa que não deixou para trás os ensinamentos e a sabedoria indígena.

Como seu trabalho tem contribuído para a defesa da Amazônia, sendo uma ativista que se utiliza da arte para fazer suas lutas e dar visibilidade à causa indígena e em que espaços tem chegado a sua fala?
Às vezes observo que faço muito pouco, nós estamos vendo toda essa situação acontecendo, o desrespeito aos direitos indígenas, aos direitos dos ribeirinhos, ao direito das pessoas que moram em comunidades tradicionais. Estou na academia fazendo pesquisa, e a gente percebe o quanto vem sendo difícil para todo mundo. Eu venho do movimento indígena do Alto Rio Negro e durante a atuação lá dediquei o máximo que pude e depois disso fui para a academia, tira um pouco do nosso tempo. Observei agora que preciso tirar um tempo para lutar pelo meu povo. A luta para mim não está só nos grandes eventos, mas está no micro. Nesse momento que é difícil está no macro, minha luta está sendo local. O pouco que posso fazer em eventos, falar de nós, levar a palavra de sabedoria dos velhos, do meus avós e avôs é muito importante. E estou usando a poesia como uma forma de luta. Minhas poesias vão falar exatamente sobre a importância da nossa mata, dos animais, de pequenas coisas, de narrativas do cotidiano. São falas curtas, mas que são reflexivas e eu levo em cada roda de conversa, seminário. Eu considero pouco, preciso fazer mais, quero estar mais atuante nas redes sociais, na mídia digital, que é uma ferramenta boa, mas que vem se usada de má fé.

O que foi essa experiência de poder fazer parte da delegação brasileira de artistas indígenas que foi ao Canadá denunciar os ataques ao meio ambiente e a comunidade indígena na Amazônia?
Essa experiência no “Simpósio Amazônia e Ártico” foi uma das melhores da minha carreira, por ter sido um momento tão importante, onde tivemos oportunidade de compartilhar não só como acadêmicos, mas também nossa arte, poesia e performance, com os indígenas do Ártico, que tem problemas parecidos com os nossos, que por vezes não vemos, mas nas rodas de conversa percebemos o quanto são fortes os ataques. Também percebemos nossa ancestralidade, essa rede de conexão com a terra, com o local onde vivemos, o respeito ao lugar de onde viemos e onde moramos. Embora de contextos diferentes, somos muito semelhantes. Eu contava nas minhas poesias sobre alguns animais que estão sendo desaparecidos. Não ouvimos mais eles cantarem, atravessarem os rios. E isso é um impacto do processo de agressão ao meio ambiente. Ainda que no Ártico sejam outros animais e as geleiras que estão derretendo, e os empreendimentos que causam impacto, eles nos contam histórias que trazem o conhecimento ancestral. Experiências iguais a essa, precisam continuar, pois você leva isso como uma lição. A arte é uma das melhores formas de contrapor, ela nos deixa livres, nos deixa flutuar, viajar por esse mundo tão quadrado, tão segmentado. Nos deixa como um pássaro, voando.

Rosi 3

Como se dá essa conexão entre a arte e o protesto? Você considera que são processos diferentes ou complementares?
O simpósio foi um momento onde compartilhamos ideias, obras e pensamos estratégias colaborativas que centralize conhecimentos indígenas para vivências de comunidades tanto indígenas e não indígenas nesses tempos difíceis. Observamos dos artistas daqui da Amazônia é a forma como nós protestamos, como o caso do Denilson Baniwa, que fez a performance muito forte do mundo que está sendo envenenado. Ele tem uma exposição sobre “Agro não é pop”, e que ataca a nossa alimentação, não só da população indígena, mas a alimentação que vai na mesa do povo brasileiro, que o agrotóxico contamina tudo, mata tudo. Ele fez uma performance de crítica às empresas mineradoras que vão para os territórios dos povos nativos e implementam os projetos de qualquer jeito, que destroem. Também a performance da Wira, que é do Emerson Munduruku. Ele é um drag que provoca uma reflexão. Eu levarei essa experiência para compartilhar nos espaços que atuo, pois foi uma metodologia que rompeu com algumas barreiras. Sabe quando você está na academia e precisa apresentar seu slide e seu power point em ordem? Não! A gente foi com o mesmo nível, mas a gente usou a arte e isso nos motiva mais, e traz de volta a história dos nossos avós, pois não podemos nos pensar só como pessoas, Rosi como artista, mas todos trazem a ancestralidade. Tem a questão da música, dos sentimentos cotidianos, as discussões em grupos, sem deixar de lado o debate sobre o enfrentamento às violências e a criação de redes, que nos fortalecem. Voltamos para o Brasil mais fortalecidos e com vontade de continuar lutando, ainda que não seja fácil para nós como povos indígenas e para todo o povo brasileiro.

Rosi 5

É muito difícil nesse momento dizer que vamos conseguir derrubar de forma imediata esse sistema que vem sendo implantado, esse sistema político que está destruindo tudo. Mas a gente vai continuar, pois já passamos por vários momentos e esse talvez seja um dos piores, mas vamos seguir, a vida da gente é assim. Também temos escolhas. Estamos tristes com parentes indígenas que se posicionaram ao lado dos interesses contrários aos dos indígenas. Sinto no coração dessas pessoas que elas não estão bem. Nós lutamos pela coletividade e não pelo individualismo, que aprendemos com nossos avós, não pensar só em nós, mas no povo indígena que precisa dos territórios e dessas regiões para viver.

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