Por Fernando Siqueira, vice-presidente do PPL, da Associação dos Engenheiros da Petrobras e do Clube de Engenharia

 

O petróleo tem duas funções fundamentais para a humanidade:

1) Como fonte eficiente de energia

O petróleo além de ser a fonte mais eficiente de energia, é fácil de extrair, transportar, armazenar e utilizar. Sua eficiência é muito maior do que a das demais fontes. Em terra, ele tem uma relação energética de 100 para 1, ou seja, se gasta apenas uma unidade de energia para se obter 100 unidades. Em águas ultra profundas essa relação cai para 23/1, mas o carvão que é a segunda fonte mais eficiente, tem a relação de 9/1 e a biomassa 1/1. O petróleo responde por 90% da energia usada nos transportes de carga e de passageiros.

2) Como insumo básico da indústria petroquímica

O petróleo é matéria prima para mais de 3000 produtos petroquímicos estando presente em mais de 80% dos bens de uso comum do nosso dia a dia. A lista contém: lentes, medicamentos, cosméticos, lubrificantes, fertilizantes agrícolas, teflon, fibras sintéticas, câmaras fotográficas, tintas, telefones móveis e fixos, pasta de dente, couros sintéticos, computadores, televisores, DVDs, partes de automóveis e muitos outros.

Dependência dos países desenvolvidos

Devido a estas funções estratégicas o petróleo criou uma dependência muito grande nos países em geral e, maior ainda, nos paises desenvolvidos que, de forma irresponsável, calcaram todo o seu desenvolvimento em cima do petróleo. Não se preocuparam com o fato de terem poucas reservas deste bem que é finito e não renovável. E, a partir dos anos 80, começaram a se dar conta da grande insegurança energética em que se encontram: o consumo de petróleo começou a superar o seu descobrimento. Hoje, atingimos uma proporção alarmante: para cada barril que se descobrem, quatro barris são consumidos.

Muito grave: a matriz energética mundial contém 87% de componentes fósseis, poluentes e não renováveis, sendo: petróleo: 37%, gás 22% e carvão 28%.

Mais grave ainda: os EUA, o maior consumidor do planeta, tem uma reserva total de 30 bilhões de barris e consome cerca de 10 bilhões por ano (80% internamente e 20% nas suas bases militares e corporações espalhadas pelo mundo); os países europeus têm poucas reservas; os asiáticos também – Japão e Coréia não têm reservas e a China tem 12 bilhões de barris, mas já consome cerca de 6 bilhões por ano. Existe ainda o cartel internacional, antes chamado de “Sete Irmãs” e agora “Big Oil”, que é composto por 3 empresas americanas (que se fundiram para sobreviver) e três européias (idem). Elas pertencem aos grupos Rotschild e Rockefeller e controlam os governos da maioria dos países com reservas. E fazem o jogo sujo, ajudadas pela CIA e por grandes co rporações anglo-americanas (é o complexo financeiro/petroleiro/armamentista). No passado, elas chegaram a controlar 90% das reservas mundiais. Hoje, controlam menos de 5%, e estão vendo ameaçada a sua sobrevivência, mesmo situando-se entre as maiores corporações do mundo. Por causa disto, paises produtores, detentores das maiores reservas, ao invés de desfrutar dessa riqueza são atacados, invadidos e saqueados.

Petróleo como causa de guerra, corrupção e desrespeito aos produtores

A historia do petróleo é marcada por muitas transgressões, invasões, assassinatos e deposições de dirigentes/estadistas dos países detentores de reservas petrolíferas. Alguns exemplos: na década de 50, o primeiro ministro iraniano, Mohamed Mossadeg nacionalizou o petróleo e foi deposto pela CIA. Foi substituído pelo Rei Reza Pahlavi que fez o jogo de EUA e Inglaterra; O Italiano Enrico Mattei nacionalizou o petróleo italiano, criando a Ente Nazionale Idrocarburi S.p.A., uma empresa estatal que desafiou o poder das sete irmãs. Foi morto num desastre aéreo com suspeita de que una bomba derrubou o seu avião; Jaime Roldós Aguilera, ex-presidente do Equador, segundo o americano John Perkins, autor do livro “confissões de um assassino econômico”, foi assassinado por uma bomba posta num gravador de fita. Seu avião caiu. Ele Havia confrontado o cartel das sete Irmãs e nacionalizado o petróleo. Sadham Hussein foi assassinado e seu país dilacerado e entregue ao domínio do cartel e da Halliburton, do ex-presidente Dick Chenney, o principal artífice da guerra do Iraque; Kadafi, da Líbia, foi deposto e assassinado. Também desafiava as irmãs do petróleo. Era independente e esperto. Na Nigéria, a Shell fez um estrago ecológico no Delta do Rio Niger e nas terras agricultáveis do povo Ogoni. Denunciando-a ao mundo, o poeta Ken Saro Wiva foi fuzilado junto com 7 seguidores a mando do presidente nigeriano, que governava com total apoio/controle da Shell.

Como estão as ações no presente na luta pelo petróleo

Além de movimentos como primavera árabe, insuflado pela OTAN/CIA, temos as ações na Síria, na Ucrânia, no Afeganistão, entre outros. Motivo: luta pelo petróleo e/ou seus dutos de transporte. Na América Latina as ações eram coordenadas pela Repsol, que era uma estatal espanhola e que foi adquirida pelo grupo Rotschild. Também as estatais Total, Fina e Elf, que se fundiram, passaram para o grupo. A Repsol iniciou o trabalho comprando a YPF argentina por um preço irrisório, além de a auditora americana Gaffney Cline afirmar que as reservas eram 30% menores. Após a privatização elas voltaram ao nível anterior (2,3 bilhões de barris). Na Bolívia a Repsol adquiriu reservas de gás e tentou enfraquecer o presidente Evo Morales, pois quando ele assumiu, a Bolívia recebia apenas 18% de royalties pelo seu gás. Morales passou para 80%, que é a média mundial que recebem os paises exportadores, e sofreu uma pressão internacional muito forte. Morales resistiu e hoje a Bolívia se encontra em ótima situação. No Brasil, o presidente da Repsol passou a ser presidente do Instituto Brasileiro do Petróleo, que comanda o lobby em favor do cartel junto aos três poderes do País. Segundo telegramas publicados pelo Wikileaks o IBP comanda esse lobby; em 1997, o Governo Fernando Henrique Cardoso, após mexer na Constituição, fez uma lei quebrando o monopólio do petróleo, Esta Lei, 9478/97, dá todo o petróleo para quem o produz com a obrigação de pagar 10% de royalties e 20% de impostos, tudo em dinheiro. Lembramos que, no mundo, os países exportadores ficam com 80% do petróleo produzido.

O presidente Lula resolveu mudar essa lei antinacional e sofreu fortes pressões do lobby e, mesmo assim, obteve avanços consideráveis, como o contrato de partilha, em que a propriedade do petróleo volta para a União ao invés da concessão de FHC. E colocou a Petrobrás como operadora única do pré-sal. Fez ainda uma cessão onerosa de alguns campos à Petrobrás, para sua capitalização mediante pagamento desta, de um valor de cerca de R$ 80 bilhões por um grupo de campos com reserva estimada em 5 bilhões de barris. A Petrobrás perfurou o primeiro campo, Franco, previsto ter 3 bilhões e achou 10 bilhões. Ao perfurar o segundo, o campo de Libra, encontrou 15 bilhões. Pela Lei nova, o Governo deveria negociar com a Petrobras um contrato de partilha para esse petróleo excedente. Mas, ao invés disto, a presidente Dilma, mais fraca do que Lula, sucumbiu ao cartel e entregou 60% do maior campo do pré-sal e do mundo atual ao cartel internacional (40% à Shell/Total e 20% a uma estatal chinesa que se relaciona com a Shell). Agora, a mídia submissa ao cartel trabalha num processo de enfraquecimento e desmoralização da Petrobrás. E inventa falácias como: “a Petrobrás não tem recursos para explorar o pré-sal”. A Realidade: a Petrobras tem o maior portfólio de reservas a explorar do mundo, e, quem tem e patrimônio dessa magnitude tem credito fácil. No último empréstimo que ela fez no mercado internacional, US$ 9 bilhões, lhe ofereceram US$ 30 bilhões. Um dos fatos tristes desse entreguismo do Governo Dilma é o de que ela conta com o apoio de partidos outrora da esquerda nacionalista (no México, o PRI e PRD também sucumbiram e aderiram ao Pena Nieto contra a Pemex). No caso do leilão de Libra, estando o processo eleitoral aberto, os atos do Governo e aliados renderam, no mínimo, o apoio da mídia à reeleição de Dilma. Há quem diga que o cartel também proverá recursos para as campanhas eleitorais.

Às vésperas do falso leilão de Libra (só o grupo ganhador fez proposta) houve a denuncia do Edward Snowden de que havia espionagem na Petrobras e a cada 72 horas uma massa de dados da empresa era remetida para os “five eyes” – EUA, Canadá, Inglaterra, Austrália e Nova Zelândia. Foi criada uma Comissão Parlamentar de Inquérito no Senado para investigar a espionagem da ANS/EUA e a presidente da Petrobrás, convidada a depor, disse que não havia espionagem porque no Centro Integrado de Dados da Companhia trabalhavam 16 empresas brasileiras, 14 americanas e cinco de outros países, mas todos os dados eram criptografados por “TRES EMPRESAS AMERICANAS”. Na semana seguinte, eu depus na CPI e demonstrei que havia a espionagem até porque o Centro Integrado de Processamento da Petrobras usa o software “Open Wells” que é da Halliburton, grande espiã, e seus analistas acessam todos os dados da Petrobras.
Nesse depoimento eu afirmei que o braço americano do Cartel não iria fazer proposta no leilão para não ter risco de anulá-lo. Acertei na mosca: só o braço europeu (Shell/Total apresentou proposta). A Repsol/Sinopec também declinou)

Na Venezuela, hoje a maior reserva de petróleo do mundo (296 bilhões de barris; quando Chavez assumiu eram 60 bilhões), o cartel faz intensa sabotagem tentando derrubar o presidente eleito Nicolas Maduro; no Peru, tendo herdado da Shell o campo de Camisea, a Repsol paga ao Governo o ridículo percentual de 8% de royalties pelo gás que ela produz, segundo afirma deputado peruano, Manuel Dammert no livro “La Batalla por el petróleo y el gas en America Latina”.

No México, a Repsol adquiriu veículos de comunicação e faz forte campanha, desde o Governo Calderon, para a desnacionalização da Pemex, usando os mesmos argumentos falaciosos que são usados contra a Petrobrás. Mas ela e a mídia não falam que o governo neoliberal retém 75% dos recursos da PEMEX, estrangulando-a financeiramente e inviabilizando-a.
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CONCLUSÃO:
Alem do petróleo, os EUA dependem 90% dos recursos naturais da América Latina, pois eles têm menos de 10% desses recursos que utilizam para seu desenvolvimento. Petróleo, gás, biodiversidade, minerais estratégicos, cobre, são alguns dos itens. Não somos contra as negociações com os EUA. Mas é preciso que haja simetria bilateral na relação. Aceitamos que os EUA cresça e melhore sua qualidade de vida, mas não em detrimento do bem estar dos nossos países, dos nossos povos, que não podem continuar a ser explorados de forma unilateral e desumana como vem acontecendo recorrentemente.

Assim, reiteramos a nossa proposta feita no ano passado no Foro de São Paulo: criar um comitê Latino-americano de Defesa da Soberania e dos Recursos Naturais dos Paises Membros (que aderirem a Comitê).

 

 

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