"Os caminhoneiros são muito discriminados. Muitas vezes somos tratados como vagabundos, mas é graças ao nosso serviço que o Brasil anda". A frase do caminhoneiro Eládio da Silva resume o pensamento de vários dos profissionais desta área tão importante para a economia nacional. No porto de Santos, o motorista de caminhão sofre com inúmeros problemas, que atingem desde a falta de banheiros e refeitórios até a questão da segurança, mas a maioria reconhece a importância da cidade portuária em suas vidas.

 

“O porto de Santos garante todo o sustento de minha família. Não é fácil largar filhos e esposa no interior do Paraná, mas trabalhando aqui eu consigo dar um padrão de vida bom para todos”, diz Artur de Oliveira, caminhoneiro há 15 anos. Natural de Maringá, ele é casado e tem uma filha de nove anos de idade. Artur destaca que o pior da profissão é ficar distante da família, não tendo a oportunidade de ver a filha crescer, tampouco de aproveitar a companhia de sua esposa.

 

“Mas eu trabalho o quanto for necessário para que eles tenham uma vida melhor que a minha. Quando eu era garoto, sofria com a falta de dinheiro, meus pais trabalhavam dia e noite para não deixar faltar comida em nossa mesa. Não pude estudar, e por isso quero que minha filha faça até uma faculdade. Para isso, trabalho o máximo que posso, ficando até 40 dias sem aparecer em casa”, conclui.

 

No caso de Wilson Roberto Pessa, dirigir caminhões era um sonho de criança incentivado pelo pai. “Sempre vi meu pai dirigindo, acabei gostando da coisa e já se vão mais de 20 anos percorrendo as estradas e os portos de todo o Brasil”. Pessa, natural de Brotas, interior de São Paulo, trabalhou em diversas áreas antes de ser caminhoneiro. Foi bancário, comerciante e fez faculdade de administração de empresas, mas deixou o curso faltando seis meses para o final, “pois a paixão pelo caminhão falou mais alto”.

 

“Com esse meu trabalho, comprei uma casa própria para minha família há 20 anos. Consigo manter meus filhos em escolas particulares, além de sustentar minha esposa”. Ele destaca que esse é um período do ano em que o trabalho aumenta, pois de abril até dezembro não faltam serviços no porto. Santos e seu porto têm um significado especial para o caminhoneiro: “Se não fosse o porto de Santos, minha família morreria de fome. Graças ao porto, ganho muito bem. Tanto que não troco”.

 

A solidão é um problema com o qual os motoristas sofrem. No caso de Nélson Andrade, levar a foto da filha na carteira é um meio de diminuir a distância. Ele, com 36 anos, pensa em trabalhar no máximo oito anos, para poder viajar e aproveitar a vida ao lado da família. “O mais complicado é superar a saudade. Ligo para casa diariamente, e sempre que posso visito minha esposa. Decidi trabalhar por conta própria por ter a vantagem de fazer um serviço quando eu quero, passando mais tempo junto com a família”.

 

Os problemas do porto

 

As criticas em relação à estrutura do porto de Santos também foram ponto comum entre os caminhoneiros. Todos reclamaram da falta de banheiro e de segurança, além do crônico problema da falta de um estacionamento. “No porto de Santos, não temos um banheiro decente disponível para nós. Vejo muitos de nossos amigos fazendo as necessidades embaixo do caminhão ou no passeio, correndo o risco de ser vistos pelos guardas portuários. Se isso acontece, eles não deixam seu caminhão entrar no pátio e você acaba ficando de mãos atadas, perdendo tempo e dinheiro”, explica José Camargo, motorista há 32 anos.

 

Para o caminhoneiro Eládio da Silva, é complicado fazer uma viagem sabendo que, ao chegar em Santos, uma série de adversidades o espera. “Todo mundo quer tirar dinheiro do caminhoneiro. Os flanelinhas fazem a festa com a gente. E não podemos tirar o olho do nosso caminhão, senão os ladrões roubam tudo. Isso porque não existe um estacionamento certinho, regularizado, um pátio com espaço para todos os caminhões. E olha que esse ano não teve safra de soja, senão o porto de Santos estaria um inferno”.

 

Opinião semelhante tem Wilson Pessa, que reclama da falta de ambulâncias no Cais santista. “Se alguém tem um ataque do coração, morre na avenida [Mário Covas] mesmo. Ambulância não existe, ninguém olha por nós. O caminhoneiro é largado pelas autoridades”. Ele ainda diz que a comida é outra adversidade, pois o porto poderia ter um refeitório limpo para os caminhoneiros. Eles têm como opção lanchar nas barracas e carrinhos espalhados pelo Cais. “Comer uma coxinha engana o estômago, mas é melhor comer um arroz com feijão”.

 

E a cada dia, dezenas de caminhões trazem cargas para o porto. Quem os conduz são motoristas que deixam para trás família e diversão, em nome do trabalho. E a luta pela melhoria nas condições de trabalho no porto continua, assim como a luta contra o tempo e a saudade, itens que vivem lado a lado destes profissionais que passam noites dentro de seus caminhões percorrendo o Brasil.

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