O Ministério da Educação, por meio de sua secretaria-executiva, nomeou Garigham Amarante Pinto para a diretoria de Ações Educacionais do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) nesta segunda-feira, 18 de maio. Amarante Pinto é assessor do PL na Câmara dos Deputados, partido que é informalmente comandado por Valdemar da Costa Neto, ex-parlamentar com seis mandatos conquistados como deputado federal - com duas renúncias após envolvimentos de seu nome em escândalos de corrupção -, um dos pivôs do caso Mensalão e velho cacique de indicações políticas no Porto de Santos, o principal do Brasil. Em 2019, o orçamento previsto do FNDE foi de cerca de R$ 55 bilhões. Mesmo sem mandato, Costa Neto continua influente no cenário político nacional e, ao lado de Roberto Jefferson (PTB), também envolvido no Mensalão, sinaliza aproximação ao governo de Jair Bolsonaro. O intuito, como fica claro, é obter cargos estratégicos em instituições que contam com orçamentos bilionários e garantir base de apoio ao presidente da República no Congresso.

Costa Neto foi diretor da Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp) no período de 1985 a 1990 (ver biografia no site da Câmara), tendo posteriormente emplacado indicação política à presidência do Porto de Santos em 2003, no primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Na época, já homem forte do PL, então partido do ministro dos Transportes, Anderson Adauto, destacou para a função José Carlos Mello Rego, com passagem anterior pela Codesp também na década de 1980. Diversas publicações de Portogente nos anos seguintes a 2003 denunciavam que o apelido de Costa Neto pelos corredores da Autoridade Portuária de Santos seria "Boy". De acordo com o jornalista Reinaldo Azevedo, "Boy" foi alcunha criada pelo pai do ex-parlamentar, quatro vezes prefeito de Mogi das Cruzes, cidade da Grande São Paulo. "'Boy' era pra ser algo como 'Júnior', mas calhou com o estilo de vida de Valdemar Costa Neto na juventude e nunca mais saiu da boca dos mogianos", escreveu o jornalista em 2011.

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Valdemar da Costa Neto tem história ligada ao Porto de Santos

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Habilidoso na "política do toma lá, dá cá", Costa Neto fez seu patrimônio crescer de R$ 1.184.151,70 para R$ 2.987.100,00 no período de 1998 a 2002, segundo dados fornecidos por sua candidatura ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE) de São Paulo. Após sair da direção do Porto de Santos, buscou o controle da Alfândega do Aeroporto Internacional de Guarulhos. O chefe de inspeção da Receita Federal no Aeroporto, Aramis Pereira de Moraes, por ele indicado, foi demitido em 1995, acusado de envolvimento em propinas. Em entrevista à extinta Rádio Eldorado, o ex-deputado afirmou que "o político que diz que não quer ter espaço na Receita mente. Qualquer um quer ter poder em qualquer lugar. O PMDB nomeou o presidente do Porto de Santos. Por que eu não poderia nomear Cumbica?".

Em 2005, a ex-esposa de Costa Neto, Maria Christina Mendes Caldeira, disse à Comissão de Ética da Câmara dos Deputados que seria de grande valia à nação investigar a relação dele com o empresário Fernando Simões, dono de empresas de ônibus e de coleta de lixo. Segundo ela, Valdemar viajou várias vezes no avião do "amigo-empresário", carregando malas suspeitas. Fernando foi irmão do já falecido Júlio Simões, fundador do gigante grupo de logística JSL, cuja primeira sede foi em Mogi das Cruzes, justamente a cidade pela qual o pai de Costa Neto foi chefe do Executivo por quatro vezes.

Reportagem de Leandro Colon publicada por O Estado de S.Paulo em julho de 2011 detalha: "Valdemar se aproximou de José Dirceu, seu colega na Câmara. Com ele, costurou a indicação de José Alencar, que tinha acabado de atrair para o PL, como vice de Lula em 2002. Pela parceria, Valdemar Costa Neto, o Boy, seria recompensado com o Ministério dos Transportes, que comandaria durante boa parte dos governos Lula, assim como o Dnit. Valdemar, sabe-se, renunciou ao mandato em 2005 para preservar seus direitos políticos. Era acusado de receber mesada para votar projetos de interesse do Governo. Sabe de muita coisa. E comanda 65 deputados e 6 senadores".

O nome de Costa Neto permaneceu presente no noticiário nacional, quase sempre relacionado a favorecimentos pessoais e partidários. Na tarde de 24 de junho de 2009, o ministro Alfredo Nascimento, seu aliado, recebeu o deputado Davi Alves da Silva Júnior, então no PDT, em seu gabintete para negociar a liberação de obras na rodovia BR-010. "Embora não tenha sido focalizado pelo cinegrafista, o deputado Valdemar Costa Neto também estava no gabinete e participou de toda a conversa", reportou publicação da Isto É em julho de 2011.

Costa Neto também foi responsável pela indicação do ex-presidente do Conselho Fiscal da Codesp, Paulo Vieira, apontado como chefe da quadrilha desmantelada no final de 2012 pela Operação Porto Seguro, da Polícia Federal. Em 2013, o comandante do PL foi condenado a 7 anos e 10 meses de prisão e ao pagamento de multa no valor de R$ 1,08 milhão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Nesse mesmo período, ele desenvolveu uma sólida amizade com o empreiteiro Fernando Cavendish, dono da Delta Engenharia, uma das principais lideranças em escândalos referentes a obras de infraestrutura em território brasileiro e um dos rostos mais famosos a protagonizar a famigerada "Farra dos Guardanapos" com o ex-governador do Rio de Janeiro e hoje presidiário Sérgio Cabral.

Mesmo atrelado a tantas condenações e renúncias, Costa Neto continua articulando por um "lugar ao sol" no segmento de transportes no Brasil. Além do FNDE e do Porto de Santos, trabalha para emplacar aliados na Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) e no Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit). O "gol" marcado por ele hoje com a nomeação ao Fundo é um "gol contra" de profundo desgosto e com sabor de derrota para a sociedade brasileira.

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