Recentemente, a opinião pública foi surpreendida pela presidente Dilma Rousseff. Sem meias palavras, ela nos esclareceu que, no caso em questão, a real causa dos apagões foi falha humana... e não raios, como haviam informado seus subordinados.

Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Dilma Rousseff refuta chance de raios causarem apagões no Brasil
durante encontro com a imprensa realizado no final de 2012

“A verdade é sempre revolucionária”, já o sabemos! Por isso, a informação da presidente é importante na imprescindível busca de soluções. O grande risco, porém, numa sociedade condicionada ao determinismo, ao "branco & preto", é que, nos eventuais próximos apagões sempre se queira, simplistamente, identificar um Judas a ser malhado... para tranquilizar nossas consciências, mas protelando ações eficazes.

Sistemas complexos, como o elétrico, têm comportamento probabilístico. Aliás, hoje se sabe que o aleatório, o estocástico, o estatístico estão muito mais presentes na física e em quase todas as áreas do que imaginávamos, até algumas décadas atrás. É o que mostra, saborosamente, Leonard Mlodinow, em seu já clássico “O andar do bêbado: como o acaso determina nossas vidas”, e o que os frequentes “apagões” podem nos aclarar.

Sistemas saturados, próximos ou excedendo sua capacidade nominal (ou máxima), como parece ser o caso do sistema elétrico brasileiro (logística, portos, entre diversos outros setores de nossa infraestrutura, também!), têm maior probabilidade de falhas – que, no limite, podem chegar a “apagões”.

O mesmo fenômeno ocorre, por exemplo, com sistemas de telefonia, abastecimento de água, internet e trânsito. E, nestes casos, onde o comportamento humano (motoristas, pedestres, passageiros) integram, interferem diretamente no funcionamento do sistema, a distância entre gargalos e caos pode não ser tão grande assim. É o que, na mecânica dos fluidos (modelo teórico utilizável em praticamente todos os sistemas que envolvem fluxos), é caracterizado como a passagem do movimento laminar para o turbulento.

No passado recente, principalmente na “era da qualidade”, a confiabilidade (o inverso da probabilidade de falha) de componentes e equipamentos cresceu sobremaneira. Em muitos casos, várias casas decimais de “9” do 99% foram preenchidas... o que, mesmo assim, não é suficiente para se “garantir” a não-falha; o “não-apagão”! Para se ir além, o caminho que se encontrou foi a redundância: vários equipamentos, vários sistemas em paralelo, como alternativas caso a falha se verifique. Mas, isso eleva custos, razão porque análises benefício X custo devem ser permanentemente feitas, na busca de “soluções de compromisso”, que sempre admitem certo risco de falhas.

Enfim, menos He-Man (“eu tenho a força!”) e mais o Apóstolo Paulo (“Pois, quando sou fraco, então é que sou forte”) nesses casos pode ser de grande valia! Também, entender seu comportamento é essencial para poder (bem) gerenciar tais sistemas. Mas, para tanto, há que se enfrentar boa parte da imprensa (que tem dificuldades com processos... se contentando com dados), os “operadores do direito” (que, apesar de se gabarem não ser o direito um ciência exata, normalmente agem deterministicamente quando tratam do mundo físico), e marqueteiros (movidos pelo “parecer”)... nada fácil!

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