São 60 anos de história comemorados no último domingo, mais de 10 milhões de veículos circulando por ano e 56 quilômetros de extensão. Só estes números bastariam para resumir a importância da Via Anchieta para o Estado de São Paulo e, principalmente, para a Baixada Santista. Mas a reportagem do PortoGente foi além, encontrando na Cota 400, em Cubatão, um dos operários que ajudou este sonho tornar-se realidade na década de 40, transformando o surgimento da Anchieta em uma importante página da história dos transportes no País.

 

História

Construída para acelerar o crescimento do Porto de Santos, a rodovia foi inaugurada oficialmente em 22 de abril de 1947, num momento em que o Brasil tentava firmar sua economia combalida pós-Segunda Guerra Mundial. Até hoje, a Anchieta é a principal ligação entre a capital paulista e o Porto de Santos, pois as pistas da Rodovia dos Imigrantes são usadas somente por carros de passeio, uma estratégia que visa a segurança tanto de turistas quanto das cargas posteriormente exportadas pelo maior porto do Hemisfério Sul.

 

Antigamente, as mercadorias chegavam em Santos por meio do Caminho do Mar. Já na década de 40, esta rota não suportava a demanda do cais santista. Por isso, o Departamento de Estradas e Rodagem de São Paulo (DER) assumiu a responsabilidade de construir um novo acesso. Para tanto, gente de todo o Brasil foi chamada para trabalhar nas obras.

 

Personagem

É aí que surge a história do baiano Oresto Barbosa de Souza, hoje com 89 anos de idade, um dos operários que ajudaram a erguer a Via Anchieta e, 60 anos depois, continua morando nas proximidades da rodovia, mais exatamente na Cota 400, em Cubatão. Oresto nasceu em Jeremoabo (BA), em 22 de março de 1918. Entrou para o Exército em 1935, prestando serviços para o governo de Getúlio Vargas. Sua principal responsabilidade era vigiar os passos de Lampião e Maria Bonita, função cumprida até o envolvimento do Brasil na Segunda Guerra Mundial, na década de 40.

 

Com a adesão do País à Tríplice Aliança na luta contra o Eixo, Oresto vibrava com a chance de lutar numa guerra, mas o chefe do Exército baiano o dispensou. Restava ao sertanejo correr atrás de um novo emprego. E seu sonho tinha nome: Companhia Docas de Santos (CDS).

 

“Meus irmãos saíram da Bahia em 1940 para trabalhar em Santos, cidade famosa no Nordeste por ter um porto enorme, com muito dinheiro para os que trabalhavam bastante. Soube que na antiga CDS não tinha vaga para meus parentes, por isso um diretor das Docas levou meus irmãos para o DER, afinal, iriam começar a construir uma estrada muito importante até para o porto. Eles se deram bem na Anchieta, por isso desisti de tentar o cais e fui para a estrada, no meio do nada, na Serra do Mar”.

 

Assim, Otero se juntou a gente de tudo quanto é canto para tocar as obras. O pior, segundo ele, eram as noites de frio no inverno rigoroso daqueles tempos. “Eu brincava com meus amigos de enxada que tínhamos duas guerras: uma na Europa e outra na Anchieta, porque nosso esforço era descomunal. Os túneis foram abertos sem máquinas, na base da marretada mesmo. Teve um dia que machuquei feio minha mão, foi dolorido”.

 

Mas em 1947, todo o esforço teve sua recompensa: a estrada mais moderna, até então, de São Paulo estava pronta, inaugurada pelo governador Adhemar de Barros com toda a pompa que merecia. Os funcionários ganham um banquete tipicamente paulista, com pão, mortadela, churrasco, queijo e vários barris de chope.

 

A maior parte de quem trabalhou nas obras acabou se instalando na própria Serra do Mar, o que deu origem anos mais tarde aos bairros Cota de Cubatão. Oresto é um exemplo típico do que aconteceu com o pessoal que trabalhou para o DER na construção da Anchieta. Depois de inaugurada a Anchieta, alguns foram ganhar dinheiro ajudando a erguer o Pólo Petroquímico de Cubatão, voltando a trabalhar para o Governo do Estado e o Departamento de Estradas e Rodagem na elaboração da segunda pista da Anchieta, concluída em 9 de julho de 1953.

 

“Foi nesta fase que ganhamos muito dinheiro, mas admito que errei e investi em besteira. Logo no começo, Cubatão era de Santos, um terreno saía por um preço camarada, mas gastei na farra, me divertindo e esquecendo de pensar em meu futuro. Por isso estou na Cota 400 há 60 anos, embora também não negue que adoro este lugar, afinal, ajudei a construir isso aqui”, recorda Oresto, que teme sair do local a qualquer momento, por imposição do Governo do Estado. “Não quero abandonar minha rodovia”.

 

Números

A Via Anchieta conta com 58 viadutos, 18 pontes e cinco túneis. No primeiro ano, passaram pela rodovia 830 mil veículos, quantia que passou para 1,9 milhão de carros quatro anos depois de inaugurada. Hoje, são 10 milhões por ano. E o Porto de Santos, junto com o Pólo Petroquímico de Cubatão, continua dando vida para a rodovia. Só em 2006, 5,5 milhões de caminhões passaram pelo local, o equivalente a 76 milhões de toneladas de cargas.

 

Estão previstos para 2007 investimentos de R$ 24 milhões para melhorias na segurança da Anchieta, que pelos prognósticos ainda terá vida longa, para sorte de empresários ligados ao setor portuário, transportadores e mesmo de Oresto de Souza, um dos responsáveis pelo feito de construir uma rodovia no meio da Serra do Mar, há 60 anos.
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