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Nos anos neoliberais , pós-muro, a intenção política se faz no grito, como os “Torpedos” de Zéllus Machado, publicado no início do século XXI. Na cidade de Sotnas, sob o governo de Tobi Surman e o jugo das corporações invencíveis, o artista brada contra os representantes locais do capitalismo financeiro / motel de alta rotatividade em sua fase barroca. Transcrevo o trecho central de “Cidade sombra”, que encerra o livro:

Arsênio Vendes, Vórtice, Estruturar, Elevas, Realis
E outras tantas e tantos indecentes
Terroristas do meio ambiente
Gananciosos, Monstros, Demagogos
Avassalando e abocanhando terrenos feitos ogros
Trocaram o lazer livre por consumo
A cidade agora saiu do prumo
A História virou pó, casas derrubadas
E eles dizem ainda com a cara mais mascarada:

Eu amo esta cidade...

Zéllus Machado nos deixa um registro histórico em forma literária do momento em que o neoliberalismo pisa em bandeiras de uma cidade que já foi chamada de Barcelona Brasileira e Moscouzinha Brasileira. Ele testemunha o nascimento da Miami Brasileira (ou Dubai do Brejo, na versão cunhada por Flávio Viegas de Amoreira após o colapso financeiro de 2008).

3 Ética e estética
O capitalismo financeiro / motel de alta rotatividade em sua fase barroca se expressa preferencialmente por uma arquitetura que nos atormenta a alma.

Em postagem recente em seu blog (“Varandas gourmet e o mal-estar dos paulistanos”), o professor José Salvador Faro, doutor e professor da pós-graduação em Jornalismo da Universidade Metodista, ao tratar dos empreendimentos imobiliários em São Paulo, apresenta o conceito de kitsch formulado por Umberto Eco em “A estrutura do mal gosto” (“kitsch é a obra que, para justificar sua função de estimuladora de efeitos, pavoneia-se com os espólios de outras experiências, e vende-se como arte, sem reservas”). Em seguida, o professor fulmina:

Aí é que está... Leio agorinha, no caderno Cidades/Metrópole, do Estadão, a notícia segundo a qual aquele espigão chamado Villa Europa (observem o kitsch sorrateiro nos dois "eles" do nome do prédio), de 31 andares, que causou polêmica depois do embargo da obra em 1999, mas já "regularizado" e certamente concluído, ganhou dois vizinhos do mesmo tamanho (31 andares cada um) e com a mesma pompa e exuberância que só o "novo" capital é capaz de gostar e construir. No total, são três monumentos ao mau gosto que se erguem agressivos numa das margens do Rio Pinheiros, uma região que foi ganhando alguma beleza de paisagem nos últimos anos.

 

São lançamentos que proliferam na cidade, não tanto pelo tamanho, mas pela voracidade com que se impõem aos direitos de suas vizinhanças e dos cidadãos em geral, invariavelmente capazes de seduzir o arrivismo de sua clientela: afinal, é preciso dissociar a riqueza da simplicidade e fazê-la - a riqueza - manifestação de poder e de acinte; o bom gosto e o comedimento da arquitetura que se danem!

É o que ocorre aqui na cidade portuária com um polvo monstruoso na Ponta da Praia e um Godzila com vista ao mar sobre a catedral na praia do Embaré.

Pós Escrito
Acima citado, o escritor Flávio Viegas Amoreira costuma dizer em público que “Santos tem que ser do Mendes, do Gilberto Mendes”. Bem, o compositor Gilberto Mendes anunciou publicamente no sábado que deixa o Festival Música Nova, criado por ele em 1962. Está cansado das dores de cabeça administrativas e agora espera que alguma instituição de ensino ou a própria cidade de Santos, por meio da Prefeitura, passe a realizar o Festival. Cabe à sociedade santista responder, material e simbolicamente, à seguinte pergunta: Que Mendes Queremos?
 
Referências
Pablo Neruda. Santos Revisitado (1927-1967). In: La Barcarola. Buenos Aires, Argentina: Editorial Losada, 1972 (1ª ed. 1967).

Zéllus Machado. Torpedos: poesias, crônicas, canções. Santos: Petardus, s/data.

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