Na coluna anterior, registrava a tese do pesquisador italiano Franco Moretti de que cada lugar gera seu próprio tipo de história. Apontava então o procedimento do escritor Alberto Martins (autor de “Cais” e “História dos Ossos”) para captar a natureza de uma cidade portuária como Santos, um local transitório cujo conflito entre a História (atividade portuária) e a Geografia (o clima úmido e a maresia) é o principal formador das passagens literárias.

 

Tendo como guia a obra de Moretti, o “Atlas do Romance Europeu”, vamos esboçar a linhagem da ficção portuária. O ponto de partida, ou de embarque, é um outro lançamento, “Escorbuto – Cantos da Costa”, quarta obra do escritor santista Flávio Viegas Amoreira.

 

De acordo com o próprio autor, que autografou o livro na última semana na Livraria Pagu, os cantos da costa são uma releitura pós-moderna de “Os Lusíadas” de Camões. O texto, um longo poema, inventa palavras, esgarça as estruturas das frases. É daqueles que se enfrentam. Na descrição do escritor Nelson de Oliveira no texto da orelha do livro, “Escorbuto” é um “rodamoinho desnorteado de bússolas”, uma “tempestade de peixes-espada”, imagens originárias do Atlântico, fonte de inspiração da poesia épica de Camões que é retomada agora em chave pós-moderna, em que a travessia não é mais a do oceano, e sim da linguagem.

O trecho abaixo mostra bem como as imagens fornecidas pela paisagem marinha se misturam à invenção poética num “Atlântico sem rumo”:

 

“percorri praias que tocam

assumi tal contorno visível ao Mar

nesse mundaréu de escamas inconforme dessinto

arrais cabeamento junções azulares

fui embarcadiço até idade de amar e ceder às escunas”

 

Ou ainda:

 

“MAR é desolamento destilhaços

MAR perdimentos

palavra rematado acúmulo”

 

Devo retomar para o esboço da linhagem da ficção portuária um assunto já tratado na coluna: entre o mundo da pós-modernidade de “Escorbuto” e o tempo das grandes navegações de “Os Lusíadas”, temos o colonialismo do século XIX registrado na coluna “O Terror portuário”, no qual os males das metrópoles modernas tem como origem os portos de países exóticos ou atrasados.

 

Um exemplo é o do personagem principal do conto “Horla”, de Guy de Maupassant, que credita a origem de sua doença a um navio brasileiro que vinha da Província de São Paulo, então infectada por uma epidemia de loucura.

 

Outra vertente da ficção colonial é a obra de Joseph Conrad, cuja exploração do continente africano é a principal origem de suas imagens, como acompanhamos neste trecho de “O coração da treva”:

 

“Tocávamos, às vezes, algum posto situado junto à margem, pendurado à orla do desconhecido, e os homens brancos que se precipitavam dos barracões em ruína, numa efusão de alegria, surpresa e boas-vindas, pareciam muito estranhos – era como se um feitiço os mantivesse ali cativos”.

 

Assim, podemos por hora destacar o seguinte encadeamento do presente em direção ao passado: a ficção portuária das obras locais (“Escorbuto”, “Cais”, “Navios Iluminados”, etc.); os textos que revelam a expansão imperial do século XIX (“O coração da treva”, “Drácula”, “Horla”); e a crônica das navegações (cujo principal nome é o de Camões, mas à qual podemos acrescentar também outros relatos).

 

O tom heróico do autor de “Os Lusíadas” é a ponte para o ponto inicial desta linhagem: os épicos da antiguidade, em que o Mar Mediterrâneo é o espaço de desventuras, desgraças. Como registra Franco Moretti: “é um mundo de tempestades e naufrágios; de guerras, traições, morte”.

 

A abertura do primeiro episódio da “Odisséia” de Homero revela o mar como elemento central do desenvolvimento da trama:

 

“Canta para mim, ó Musa, o varão industrioso (Ulisses) que, depois de haver saqueado a cidade sagrada de Troáde, vagueou errante por inúmeras regiões, visitou cidades e conheceu o espírito de tantos homens; o varão que sobre o mar sofreu em seu íntimo tormentos sem conta, lutando por sua vida e pelo regresso dos companheiros”.

 

Essa linhagem da ficção portuária pode ser caracterizada pela utilização do mar e da navegação como elementos da criação literária, como escreveu o poeta, tradutor e crítico literário Cláudio Willer sobre “Escorbuto – Cantos da Costa” e que acredito valha para toda a categoria: “‘Escorbuto’ (...) pertence à família das viagens metafóricas, percorrendo o mundo dos símbolos, inclusive, com especial riqueza, todas as metáforas da navegação e usos da navegação como metáfora em poemas. Permite entrever a riqueza e a complexidade das conexões entre o simbólico, a subjetividade e o mundo das coisas”.

 

Referências:

AMOREIRA, Flávio Viegas. Escorbuto – Cantos da Costa. Sete Letras, Rio de Janeiro, 2005.

HOMERO. Odisséia. Editor Victor Civita, São Paulo, 1981.

MARTINS, Alberto. História dos ossos. Editora 34, São Paulo, 2005.

MARTINS, Alberto. Cais. Editora 34, São Paulo, 2002.

MORETTI, Franco. Atlas do Romance Europeu. 1800-1900. Boitempo, São Paulo, 2003.

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