“Santos não é bem um tema, é uma solução aberta”
Patrícia Galvão

Quem tem acompanhado a coluna Porto Literário nas semanas recentes tem lido um vai-e-vem entre textos sobre o Porto de Santos como tema literário e literatura latino-americana. Pelo ritmo das leituras, parece que não vai mudar. Há duas semanas escrevi sobre os temperamentos de dois grupos de poemas sobre a cidade portuária, fui para Roberto Bolaño na semana anterior e hoje volto aos tais temperamentos.

O nostálgico, em que são identificados versos de Ribeiro Couto, Roldão Mendes Rosa e Narciso de Andrade, autores que escreveram desde os anos 30 (Couto) e até a última década do século XX (com a ressalva de que Narciso tem seu primeiro livro publicado em 2006, ainda que com poemas escritos desde os anos 50). São filhos de imigrantes tendo o cais como cenário da infância, administram o bazar que família abriu na nova terra, são repórteres que tomam lanchas para entrevistar famosos em navios ancorados na barra. Seus poemas são líricos: “Nasci junto do porto, ouvindo o barulho dos embarques...” (Couto), “Por que / este amor ao cais / se o que espero / não viaja?” (Roldão), “Com tanto navio para partir / minha saudade não sabe onde embarcar” (Narciso).

Por contraste, na outra seleção de poemas predomina o temperamento de desolação, um desconsolo que começa com Madô Martins na virada do século e segue em livros e poemas escritos por Alberto Martins, Flávio Viegas Amoreira e Ademir Demarchi, com “Costa a Costa” (2012), primeiro poemário do volume Pirão de Sereia (2012).
 
Madô encerra o poema “Raízes”, de 1999: “Moro no Sul / e jamais migro. / Procuro mensagens em garrafas, / na areia da praia, / mas só encontro conchas e maresia”. Noto o contraste do “jamais migro” com o “tanto navio para partir” de Narciso. O livro Cais (2002), de Alberto Martins, é rico em imagens desoladas: “e o casco? / É úmido. Está coberto / de cracas e a ferrugem / que rói as chapas”, ou “Triste cidade litorânea / meus olhos mal te distinguem / da terra do mar da lama”, ou ainda “Aqui eu moro / entre bandeiras de diferentes donos / e as grossas placas de aço do abandono”. Em outro texto transforma um cemitério em um pátio de contêineres.

Clique aqui para ler a segunda parte deste artigo.

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