I

Discussões acadêmicas sobre como se faz história (ou pelo menos como os historiadores de profissão exercem o ofício) podem ser interessantes. A história é o que milhares de anos nos acumulam sobre os ombros, e uma incursão histórica pretende alcançar o que há em todos nós pelos meandros do tempo.

 

Quem sabe esta não é a razão porque se gosta tanto da dita; contamos nas duas mãos a quantidades de revistas sobre história publicadas mensalmente no Brasil hoje; os cadernos de final de semana dos jornais dão muito espaço ao tema; é a que mais se destaca dentre as ciências humanas, compete de igual para igual com meio ambiente e novidades médicas ou tecnológicas (embora na TV esses dois temas sejam soberanos – e é lógico que assim seja, as imagens históricas produzidas pelas câmaras ainda são muito novas).

 

Desvio do principal, porém.

 

O material jornalístico aí descrito reflete também a gama de objetos aos quais se dedicam os historiadores (os objetos são o que se estuda, ex: a Revolução Francesa, processos judiciais, a literatura do século XVIII). Depois de uma tradição secular de história de países, de reis, dos conflitos internacionais e de revoluções, os historiadores das primeiras décadas do século XX iniciam a exploração da história das sociedades e seus infinitos afluentes: história social, do trabalho e de categorias específicas de trabalhadores; história das instituições religiosas, de seitas e de fanáticos milenaristas; história da literatura, do livro e da leitura; história do medo, do pensamento e da anedota; história da ciência, do conhecimento da própria história.

 

Por vários motivos os historiadores passaram a observar a ação dos homens ao longo do tempo em qualquer escala: a vida de um moleiro medieval processado, julgado e queimado pela Inquisição, os acordes das bandas de jazz e as dolorosas palavras de um poeta sobre sua cidade natal são veredas que podem se abrir aos olhos do historiador pela diversificação de sua atenção. Diversificam-se também os meios de execução da pesquisa e interpretação (as tais das metodologias).

 

II

Os ensaios do poeta russo Joseph Brodsky (1940-1987) reunidos em Menos que um são marcantes, entre outros fatores, pela aguçada percepção histórica do autor, o que se pode dizer sobre centenas de autores. Mas o que diferencia o relato de Brodsky é a expressividade de seu texto. Muito mais que estilo, a expressão de Brodsky é em si mesma um posicionamento ético.

 

E ele nunca perde de vista sua posição no quadro histórico: um artista da palavra nascido sob a herança da grande literatura russa e formado sob a perseguição exercida pelo totalitarismo de Stálin sobre os literatos que não seguiam os traçados do realismo socialista, a corrente político-estética da revolução de 1917.

 

A ética de sua expressão submete a política às demais dimensões da existência humana. Seu texto não apenas se rebela contra o opressor político (ou religioso, ou do trabalho, enfim, aquele que detém também o poder do discurso), mas, de tão preciso, impõe-se e se permite soar como música (e isso na tradução para o português feita por Sergio Flacksman, de quem eu repito a grafia "Lenin", sem acento circunflexo).

 

Assim Brodsky abre o ensaio Guia para uma cidade renomeada, de 1979, sobre a atual São Petersburgo :

 

“Diante da Estação Finlândia, um dos cinco terminais ferroviários pelos quais um viajante pode entrar ou sair da cidade, às margens do rio Neva, ergue-se um monumento ao homem cujo nome esta cidade hoje usa. Na verdade, todas as estações de Leningrado ostentam um monumento a este homem, seja uma estátua em grande escala diante da entrada, ou um grande busto no interior do prédio. No entanto, o monumento que se ergue diante da Estação Finlândia é único. Não é a estátua em si que importa, porque o camarada Lenin aparece retratado da costumeira forma quase romântica, com a mão espetando o ar, supostamente em pleno ato de se dirigir às massas; o que importa é o pedestal. Porque o camarada Lenin aparece proferindo sua oração de pé sobre um carro blindado. (...) Que eu saiba, este é o único monumento que existe em todo o mundo representando um homem de pé num carro blindado. É apenas por esta razão que se trata de um símbolo da nova sociedade. A antiga sociedade costumava ser representada por homens montados a cavalo”.

 

Não acredito que haja elogio razoável à qualidade do texto. Já a peça chave da composição é o pedestal em forma de carro blindado. O objeto é o ponto para o qual convergem as imagens que se interligam no texto (as estações e os monumentos de Lenin) e é também um marco histórico, “símbolo da nova sociedade”, na qual a força do regime se mostra na multiplicidade de exposição da figura do líder revolucionário, no pedestal em forma de automóvel militar e na própria escolha de estátuas para figurar o texto.

 

Brodsky sabe que o totalitarismo soviético foi herdeiro político do autoritarismo dos czares que a revolução derrubou:

 

“Muito apropriadamente, alguns quilômetros rio abaixo, na margem oposta do rio, ergue-se um monumento ao homem cujo nome esta cidade usava antes, desde a data de sua fundação: uma estátua de Pedro, o Grande. Este monumento é impressionante, com cerca de seis metros de altura, a melhor obra de Etienne-Maurice Falconet, indicado tanto por Diderot como por Voltaire a Catarina, a Grande, que encomendou a obra. No alto do imenso bloco de granito que veio arrastado até aqui desde o istmo da Carélia, Pedro, o Grande, se eleva, contendo com a mão esquerda o nervoso cavalo que simboliza a Rússia, e estendendo a mão direita para o Norte”.

 

Ao descrever os arredores da estátua de Pedro, o Grande, Brodsky executa uma delicada passagem que revela o sentido da sucessão histórica:

 

“... e sua mão aponta para a universidade que ele construiu, do outro lado do rio, e onde o homem do carro blindado obteve parte de sua educação".

 

Entre os dois líderes nacionais, Brodsky opta por nenhum. Mas a ética de sua expressão não nega as duas figuras históricas simplesmente; nega Lenin e Pedro, o Grande, pelas marcas que deixaram na cidade, inclusive os nomes:

 

"Assim, essa cidade de 276 anos de idade tem dois nomes, um nome de solteira e um nome suposto, e no fim das contas seus habitantes tendem a não usar nenhum dos dois. Quando se trata de correspondência, ou de seus documentos de identidade, eles sem dúvida escrevem Leningrado, mas numa conversa normal elas preferem chamar a cidade simplesmente de 'Peter'. Esta escolha do nome tem muito pouco a ver com suas convicções políticas; a questão é que tanto 'Leningrado' como 'Petersburgo' são nomes um tanto desconfortáveis do ponto de vista fonético e, de qualquer maneira, as pessoas sempre têm o costume de dar apelidos aos lugares onde vivem - é um grau avançado de domesticação. (...) Além disso, já que o verdadeiro nome do imperador em russo é 'Pyotr', 'Peter' sugere um certo estrangeirismo, e parece adequado - porque existe alguma coisa de claramente estrangeira e alienante na atmosfera da cidade: seus prédios de aparência européia, talvez sua própria localização, no delta daquele rio do Norte que corre para o mar aberto e hostil".

 

No trecho acima se identifica a fonte da resistência às figuras dos líderes: os próprios habitantes, ao escolherem chamar a cidade de "Peter". E é uma resistência antes de tudo lingüística, o que só da forma final à ética de sua expressão.

 

Na próxima semana: São Petersburgo, porta para a Europa.

 

Referências:

 

Joseph Brodsky. Menos que um. Tradução: Sergio Flaksman. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

 

 

Sobre as discussões historiográficas:

 

Carlo Ginzburg. O queijo e os vermes - o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição. São Paulo; Companhia das Letras, 1987.

 

Eric J. Hobsbawn. História social do jazz. Rio de Janeiro; Paz e Terra, 1990.

 

Jacques Le Goff e Pierre Nora (organizadores). História: Novos Problemas, Novas Abordagens. Novos Objetos (em três volumes). Rio de Janeiro; Livraria Francisco Alves Editora.

 

Fernand Braudel. Uma lição de História. Rio de Janeiro; Jorge Zahar Editora, 1989.

 

Eric Hobsbawn. Sobre História. São Paulo; Companhia das Letras, 1998.

 

Sérgio Buarque de Holanda. Para uma nova história. São Paulo; Editora Fundação Perseu Abramo, 2004. 

Ciro Flamarion Cardoso e Héctor Pérez Brignoli. Os métodos da História. Introdução aos problemas, métodos e técnicas da história demográfica, econômica e social. Rio de Janeiro, Edições Graal, 2002.    

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