Nesta primeira coluna de 2007 ficam os votos de um ano de realizações e alegrias aos leitores que costumam freqüentar este espaço.

 

I

Na semana passada Porto Literário escreveu como, apesar das aproximações às modas literárias e à indústria cultural, o chamado boom da literatura latino-americana nos anos 60 representava um momento de maturidade da ficção escrita no subcontinente, estágio em que foi alcançada a configuração na região de um “sistema literário”, no conceito de Antonio Candido.

 

Hoje vamos aprofundar como esse momento ilumina os nexos entre história e literatura, tema básico da coluna.

Para começar fiquemos com a própria definição de Candido, retirada de Formação da literatura brasileira, de 1959, na qual o sistema literário é um:

 

[...] sistema de obras ligadas por denominadores comuns, que permitem reconhecer as notas dominantes duma fase. Estes dominantes são além das características internas (língua, temas, imagens), certos elementos de natureza social e psíquica, embora literariamente organizados, que se manifestam historicamente e fazem da literatura aspecto orgânico da civilização. Entre eles se distinguem: a existência de um conjunto de produtos literários, mais ou menos conscientes de seu papel; um conjunto de receptores, formando os diferentes tipos de público, sem os quais a obra não vive; um mecanismo transmissor (de modo geral, uma linguagem, traduzida em estilos), que liga uns aos outros.

 

É o próprio Candido que em outro texto – na verdade uma conferência sobre o crítico uruguaio Ángel Rama (1926-1983) – mostra como o boom se realiza enquanto configuração do sistema literário latino-americano. Para o brasileiro, Rama (à esquerda) registrou o momento como uma conseqüência do período anterior, as décadas de 20 e 30, em que a literatura e a produção artística se viam entre as formulações vanguardistas e as escolhas políticas. A citação é longa, mas explica bem o processo:

 

Segundo ele [Rama], os dois principais  focos da vanguarda na América Latina foram São Paulo e Buenos Aires, e em ambos verifica a ocorrência de algo que é comum a todo o subcontinente: a existência do que chama de “dois modos”. O primeiro deles é a pura formulação vanguardista, representando ruptura radical com o passado e referência a uma realidade virtual que se projeta no futuro. Esse modo se vincula diretamente às vanguardas européias, que serviram de estímulo e, mais do que isto, de modelo, representando uma direção “universalista”. No entanto, esse “modo” não foi alienador, como tinham sido as tendências decadentistas na passagem do século XIX para o século XX: “O que [as vanguardas latino-americanas] recuperaram em Paris foi a originalidade da América Latina, a sua especificidade, o seu timbre, a sua realidade única”. O segundo “modo” foi a penetração na realidade local, que tende ao realismo, suscita o regionalismo e portanto a continuidade com o passado, pois o regionalismo pressupõe a valorização das tradições e certo sentimento conservador de nostalgia, que resiste às inovações do mundo contemporâneo. Mas, como as tendências renovadoras se exprimiam por vezes nos termos do regionalismo, houve na América Latina uma “dupla vanguarda”, gerando certa duplicidade difícil de solucionar. Ela produziu no escritor de vanguarda um dilaceramento do qual os brasileiros escaparam melhor, devido ao cunho fortemente nacional de sua literatura, o que não ocorria noutras partes do subcontinente. Nesse sentido, Rama considera Macunaíma, de Mário de Andrade, a “articulação mais feliz do sistema literário brasileiro”. Mas a partir daí assinala uma conseqüência que pode ser considerada o traço mais original e fecundo das nossas literaturas no período atual, e que se reproduziu como desdobramento da “dupla vanguarda”: a penetração do espírito e das técnicas renovadoras no universo do regionalismo  condiciona a obra singular de autores como José Maria Arguedas, Juan Rulfo, Gabriel García Márquez, João Guimarães Rosa. Ela pressupõe a fusão dos dois “modos” conflitantes, superando-os mediante uma síntese inesperada (que talvez, podemos inferir, seja o motivo principal do impacto da nossa narrativa no tempo do famoso boom).

 

II

Na mesma conferência, Uma visão latino-americana, pronunciada em 1991 no seminário internacional Literatura e História na América Latina, Candido, ao tratar do trabalho crítico de Ángel Rama, destaca o contexto histórico da produção literária do continente que, apesar da herança da civilização ocidental, mantinha características próprias. Enquanto os países europeus podiam – e ainda podem – qualificar sua produção literária dentro da categoria de literaturas nacionais (francesa, inglesa, alemã, por exemplo), os países do subcontinente americano ainda não tinham – e ainda não têm – sedimentação histórica suficiente para que os aspectos nacionais sejam fundamentais nesta formulação (apesar de as literaturas brasileira e argentina estarem à frente neste quesito, os países de cá foram formados há relativamente pouco tempo para que esse processo esteja concluído).

 

Talvez por isso que os grandes romances do século XIX (os escritos por Charles Dickens ou Honoré de Balzac) formam o gênero que dá identidade aos países europeus, como Ilusões Perdidas (1843), de Balzac, que mostra uma das cidades-ícones da modernidade, Paris, como centro político e cultural do Estado-Nação francês, ou os romances de casamento de Jane Austin que mostram a movimentação de mulheres solteiras por aquelas paisagens inglesas que conhecemos dos filmes ambientados no mesmo período, configurando assim o território nacional da Inglaterra.

 

Já por aqui, abaixo da linha do Equador, onde os países ainda se encontram em formação, o contexto político e cultural do período entre as vanguardas e o boom exigia um gênero literário diferente, o ensaio de identidade, como são os clássicos da ciência social no Brasil, como Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda, e Casa Grande e Senzala (1933), de Gilberto Freyre, ou ainda O labirinto da solidão (1950), do mexicano Otávio Paz (1914-1998), vencedor do prêmio Nobel de 1990.

 

São eles que dão os objetos culturais que os escritores do boom iriam mais à frente explorar em suas obras naquela fusão dos “dois modos” a que se referia Ángel Rama acima no texto de Candido.

 

Ana Pizarro, professora chilena de Historiografia Literária Latino-americana, em outra conferência do mesmo seminário, destaca da seguinte forma, o momento histórico do boom:

 

Os gloriosos anos 60 permanecerão na memória histórica de muitos latino-americanos como os anos do questionamento e da fé utópica. Anos de “exercício do critério” na ciência social: teoria da dependência frente ao desenvolvimento, crítica e contracrítica, diálogo com os africanos, que começavam a emergir do seu processo de descolonização. Anos de fortalecimento das organizações populares, tempo da Revolução Cubana, dinâmica inusitada de integração latino-americana e do Caribe, ressurgimento do sentimento antiimperialista, semente da futura Teologia da Libertação, reivindicações das minorias no plano internacional, emergência do feminismo.

 

Pizarro acredita que os anos 60 são um momento que necessita de revisão – “em toda a sua beleza e em todo o seu desprendimento” – e a literatura do período é uma porta aberta para lembrar esse momento e atualizar suas dinâmicas para as demandas políticas, sociais e artística de hoje. Porque, como disse o próprio crítico uruguaio:

 

A própria América Latina segue sendo um projeto intelectual vanguardista que espera sua realização concreta.

   

 

Referência:

O trecho de Formação da literatura brasileira foi retirado de:

 

Marisa Lajolo. A leitura na Formação da literatura brasileira de Antonio Candido. In: História e literatura: homenagem a Antonio Candido. Organizado por Jorge Ruedas de la Serna. Campinas e São Paulo: Editora da Unicamp, Fundação Memorial da América Latina e Imprensa Oficial de São Paulo, 2003.    

 

Antonio Candido. Uma Visão Latino-americana; e

Ana Pizarro. Ángel Rama: A Lição Intelectual Latino-americana. In: Literatura e História na América Latina: Seminário Internacional, 9 a 13 de setembro de 1991. Organizado por Ligia Chappini e Flávio Wolf de Aguiar. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1993.
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