O trabalho crítico de Antonio Candido volta ao espaço depois da semana anterior, quando seu conceito de “sistema literário” foi aplicado para entender o momento histórico do boom da literatura latino-americana nos anos 60. Talvez influenciada pelas leituras de Jorge Luis Borges, a coluna, para continuar tratando do pensamento de Candido, vai recorrer a um comentarista de sua obra, Jorge Ruedas de la Serna, da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade Autônoma do México.

 

O comentarista, junto com Antonio Arnoni Prado, editou Estruendo y liberación. Ensayos críticos, coletânea em espanhol de textos de Candido, publicada no México pela editora Siglo XXI em 2000. É ele também o organizador de História e literatura: homenagem a Antonio Candido, de 2003, outra coletânea, desta vez de conferências e seminários sobre o autor, além de textos, boa parte dos quais apresentados no Seminário Internacional Sobre História e Literatura. Homenagem a Antonio Candido, apresentado no Centro Coordenador e Difusor de Estudos Latino-americanos desta universidade.

 

Por isso a menção a Borges, que criava contos como se fossem críticas literárias ou resenhas e os preenchia com citações de autores imaginados ou reais ou de textos imaginados de autores reais. Esse encadeamento de citações ou objetos é um recurso constante da narrativa de Jorge Luis Borges, já disse o crítico literário Alfredo Monte, procedimento que a coluna extrai da literatura e aplica aqui não para apenas sugerir o conhecimento que Ruedas reúne sobre o autor de Formação da literatura brasileira, de 1959, como também para demonstrar como o intercâmbio intelectual se dá no subcontinente, tema por qual Porto Literário passou nas últimas semanas e retomará em nova ocasião.

 

Ruedas, que colabora para a coletânea com o ensaio El método crítico de Antonio Candido, ressalta que o crítico brasileiro considera que as obras literárias podem ser relacionadas com a realidade pela translucidez ou opacidade que apresentam, sendo os dois válidos, ainda que requerendo tratamento diferenciado e nos diversos níveis de leitura que comporta a atividade artística: estético, histórico, antropológico, sociológico e suas próprias condições de produção. No dizer de Candido:

 

“Como pressuposto, está a convicção de que o discurso literário mantém com o real, isto é, a natureza, a sociedade, a mente, relações que podem ser justificadas, ainda que estejam regidas por uma dose de arbítrio transfigurador.”

 

O pensador mexicano define este tal de “arbítrio transfigurador” como a condição própria em que o crítico literário exerce seu ofício, uma aventura da interpretação que “depende da cultura e da sensibilidade de cada um” e, por isso mesmo, coloca-se como uma atividade democratizadora. Ruedas relata em seu ensaio uma conversa com Candido em que o pensador brasileiro revela que se fosse nascer de novo gostaria de voltar na pele do crítico literário alemão Erich Auerbach, autor de Mimesis (1946), um dos clássicos da interpretação de obras literárias, que diz o seguinte do ofício, no resgate de Ruedas e na tradução do espanhol para português do insuficiente colunista (mas que tem tudo a ver com a citação da citação da citação do método de Borges):

 

“Cumpre considerar somente o texto propriamente dito e observá-lo com uma atenção intensa, sustentada, de modo que nenhum dos movimentos da língua e de fundo se escape de nós – o que é muito mais difícil do que poderiam imaginar aqueles que nunca tenham praticado o método; observar bem e distinguir as observações feitas, estabelecer as relações entre elas e combiná-las em um todo coerente constitui quase uma arte e seu desenvolvimento natural tenha se entranhado, certamente, pelo grande número de concepções já formadas que temos em nosso cérebro e que introduzimos em nossas pesquisas.”

 

Equilibrar os “movimentos da língua” dos textos literários que têm os portos como cenário e também seus enredos com o contexto em que foram escritos é o que vem tentando fazer esta coluna desde seu início. É mesmo sempre mais difícil fazer do que parece, principalmente quando a capacidade não está à altura dos conteúdos apresentados, mas nunca deixa de ser recompensador. Que as instruções de Eric Auerbach e Antonio Candido, bem como de outros pensadores que por aqui já passaram, continuem iluminando os caminhos deste Porto Literário em seu ofício de mostrar como se pode entender uma sociedade – no caso as cidades portuárias e Santos, em particular – por meio de sua literatura.

 

Referências:

Jorge Ruedas de la Serna. El método crítico de Antonio Candido. In: História e literatura: homenagem a Antonio Candido. Organizado por Jorge Ruedas de la Serna. Campinas e São Paulo: Editora da Unicamp, Fundação Memorial da América Latina e Imprensa Oficial de São Paulo, 2003.

 

Eric Auerbach. Mimesis. São Paulo: Editora Perspectiva, 1971 (1ª edição, 1946).
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