Dedicada, dona de uma alegria contagiante, obstinada e determinada, essa mulher aceitou os desafios de seu trabalho no porto, venceu o preconceito e a desconfiança de alguns homens e conquistou respeito e admiração. A tradutora-intérprete Márcia de Andrade Klein, 55, é um exemplo da conquista feminina no desempenho de tarefas ditas masculinas. Ela atuou em empresas de vistoria de contêineres por onze anos.

 


Márcia é divorciada, natural de Santos, tem dois filhos e adora ler livros dos mais variados gêneros, pintar quadros e navegar na internet.

 

Aos 34 anos, após o divórcio, a então dona de casa decidiu buscar o seu lugar no mercado de trabalho. O conhecimento de outros idiomas facilitou e muito o seu ingresso no ramo portuário.

 

O seu primeiro emprego foi na empresa Seabox – Serviços Marítimos Ltda, em 1983. Contratada para traduzir os manuais de reparos, sem nenhum conhecimento em contêineres, ela acabou tornando-se especialista no assunto. O inglês fluente e o fato de saber ler em francês, italiano e espanhol facilitaram o seu aprendizado sobre o produto. “Comecei a traduzir os manuais que vinham em inglês de acordo com o ISO (Standardization for Organization), que padronizava todos os reparos”. O ISO é uma organização não-governamental sediada em Genebra que fornece certificações de qualidade a produtos e empresas. Traduzindo o manual, difícil por seus termos técnicos, aprendeu tudo sobre contêiner e os nomes de todas as peças.

 

Contudo, o conhecimento das peças era apenas o primeiro desafio de Márcia. Para ser respeitada entre os colegas, aprendeu, na prática, como fazer reparos em contêineres. Um dia, ao verificar uma solda mal-feita em um contêiner, foi desafiada por um colega a fazer melhor e lá foi ela. “Aprendi fazer uma costura de solda maravilhosa”, orgulha-se. A iniciativa lhe rendeu uma pequena cicatriz de queimadura no braço que exibe graciosamente. A partir daí conquistou seu espaço. “Mas eu penei um bocado para ser aceita. Lembro que havia somente duas mulheres que atuavam no ramo: a Márcia Rutigliano, dona da Seabox e a Érica Nunes Cunha, da Repcon Reparos de Contêineres”. Porém, conta que elas não tinham autorização para circular em área de cais. Já, Márcia tinha autorização expedida pela Delegacia do Trabalho Marítimo.

 

Márcia estava no porto a qualquer hora do dia e da noite. Lembra com carinho da solidariedade dos colegas que arrumaram uma camiseta da firma para que ela não fosse confundida com as garotas de programa, de madrugada. “Mas nunca ouvi uma gracinha de nenhum estivador, sempre me trataram com o maior respeito. Eu ouvia piadinhas pesadas de alguns estrangeiros”, comenta.

 

Certo dia, durante uma vistoria, Márcia ficou presa em um contêiner e quase foi embarcada para o Japão. Reconhece que foi imprudente, pois a vistoria deve ser feita por duas pessoas. Enquanto um faz a vistoria no interior, o outro fica do lado de fora do contêiner. Quando sentiu que o contêiner estava sendo movimentado pelo guindaste bateu com o salto do sapato no corrugado e aí perceberam que ela estava ali dentro e abriram a porta. Aquele contêiner não tinha respiradouro, se ela não conseguisse sair dali poderia morrer asfixiada. “Eu andava sobre os tetos dos contêineres, durante a vistoria, era uma delícia”.

Márcia atuou em três empresas na área portuária. Na segunda empresa, Hamburg Sud, aprendeu tudo sobre navio e embarque. A experiência adquirida lhe rendeu o cargo de encarregada na Laurits Lachmann. Comunicativa, disse que é fundamental manter um bom relacionamento com os armadores porque há muitas agências de navegação concorrendo no mercado e que é muito comum o armador diversificar as agências que contrata. “Eu estabelecia laços de amizade, cheguei até a ser babá do filho de um armador”.

 

Como chefe de uma equipe de homens e mulheres disse que o segredo para se ter um bom serviço prestado é ter jogo de cintura, bom entrosamento com todos. Ressalta que a responsabilidade nesse setor é muito grande porque tem muito dinheiro envolvido na movimentação de carga e descarga. As cargas e os navios devem permanecer no porto apenas o tempo necessário. Segundo Márcia, a pressão e a adrenalina eram muito grandes, embora revele que sinta saudades disso. 

 

Supervisionava tudo. “Tinha que ter em mãos a lista dos contêineres que estavam sendo reparados, cobrar do terminal se o conserto já tinha sido feito e saber quando aquele contêiner estava pronto para ser oferecido ao exportador”, comenta. Contêiner em situação irregular não pode embarcar. O contêiner não pode estar necessitando de reparos, úmido ou com vestígios de produtos que foram embarcados. As temperaturas dos contêineres refrigerados tinham que ser rigorosamente checadas. Segundo ela, os reparos de contêineres no Brasil, além de serem os melhores, eram os mais baratos do mundo.

 

O trabalho de vistoria era uma realização para Márcia. “Eu adorava descer nos porões dos navios e vistoriar a descarga dos contêineres”. Eu tinha consciência que era eficiente e isso me dava uma sensação muito boa de segurança, de auto-estima. Eu tinha talento para lidar com contêineres. Memorizava uma série de cem contêineres e cada um tinha seis números e um dígito”, afirma. Ela sabia o histórico de cada um.

 

Faz questão de dizer quem tem uma dívida de gratidão com o diretor da Laurits Lachmann, John Rizgallah, um egípcio que acreditou no seu potencial e a promoveu a encarregada do departamento de contêiner, quando algumas pessoas eram contra.

 

Destaca que a profissional que trabalhava no porto era marginalizada pela sociedade, nos anos 80. “Chegaram a me dizer que isso não era trabalho para uma mulher decente”, indigna-se.

 

Márcia deixou o ramo portuário em 1994 por motivos de saúde e desde então trabalha como tradutora-intérprete, mas não se esquece de seus companheiros. São eles: Zacarias, Francisco, Paulinho, Sueli, Valéria e Rosana.

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