Suneiva Maria Nicodemos tem 29 anos e está a três meses de conseguir realizar seu sonho de se tornar uma engenheira civil. Mas, sem dúvida nenhuma, ela não é uma estudante comum, pois teve muita força de vontade e determinação para conseguir chegar até aqui, percorrendo diariamente, com sua moto Biz, grandes distâncias para poder cumprir todas as suas atividades. Sua trajetória começa em Praia Grande, no bairro Samambaia, onde mora; depois passa por Cubatão, onde trabalhou no período da manhã até um mês atrás, e segue para o porto de Santos, onde trabalha à tarde; após o expediente, freqüenta a faculdade até as 22 horas, quando enfim retorna para sua casa.

 

O gosto por desenhar foi o que aproximou Suneiva da engenharia civil, outro fator que a fazia pender para essa escolha era o fascínio pelas disciplinas de matemática, física e química. Sem poder cursar uma universidade, devido ao alto preço da mensalidade, ela descobriu o curso de Técnico em Edificações fornecido pelo colégio Aristóteles Ferreira gratuitamente. “Fiz os dois anos e me formei, daí tive certeza de que o que eu queria era ser engenheira civil”.

 

Mas o sonho da estudante ainda estava longe de se concretizar. “Precisava trabalhar e comecei por uma área completamente diferente. Trabalhei sete anos no laboratório de Analises Clínicas do Gonzaga, isso não era o que eu queria, ainda mais depois de ter concluído o curso de técnico em edificações, mas não tinha o dinheiro para a faculdade”.

 

No dia 13 de março de 1999, a vida de Suneiva mudou completamente com a morte de seu pai. “Eu falei: mãe, quero ser alguém na vida”.  E foi a partir dessa data que ela começou a construir seu sonho de se tornar engenheira. “Passei no vestibular e com o salário do laboratório comecei a fazer engenharia civil na Universidade Santa Cecília”.

 

Quando ingressou no sétimo semestre, outra barreira foi colocada na vida de Suneiva. “Tinha que fazer estágio é obrigatório nessa fase, sem ele eu não posso pegar o CREA (Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia), só que para isso teria que parar de trabalhar e se parasse como iria pagar”.

 

“Minha mãe é pensionista ganha pouco, meu irmão mora no Paraná e não tem condições de me ajudar. Tenho uma irmã que mora em Santos mas ela é separada têm dois filhos, e paga aluguel, então também não daria para me auxiliar. A única solução seria o estágio remunerado”.

 

Uma colega foi quem avisou Suneiva de que estavam precisando de estagiário na empresa Concrejato, em São Paulo. “E foi minha sobrinha quem enviou o currículo, pois eu estava no laboratório e não tinha como faze-lo. No mesmo dia fui chamada para comparecer na empresa na manhã seguinte e depois da entrevista recebi o telefonema de que tinha sido a escolhida”.

 

Foram quatro meses trabalhados na empresa em São Paulo, dois pela própria Concrejato e mais dois pela Cosipa, mas quando terminou o trabalho da Cosipa todos os funcionários foram dispensados. “Eu entrei em desespero comecei a chorar e me perguntava: e agora quem vai pagar minha faculdade?”. 

 

Suneiva começou a enviar currículos para todos os lugares e chegou a ir a Riviera de São Lourenço e bater de construtora em construtora pedindo por um estágio remunerado. Não obtendo êxito foi fazer um trabalho temporário no Teatro Coliseu. “Pintei o teto do teatro. Quando você entra no teatro e olha para cima têm vários anjos no teto, eu fiz essa restauração junto com os restauradores que vieram do Rio de Janeiro. Foram 15 dias para ganhar R$300. Meu namorado também me ajudou muito nesses dois meses que estive desempregada ele ganhava pouco no trabalho, então pintava apartamentos de amigos para me ajudar a pagar a faculdade”.

 

“Também me virei muito vendendo produtos de catálogos, que não é muito dinheiro, mas já ajudava a colocar gasolina na moto para eu poder vir para a faculdade e dava aulas de reforço de matemática, física, química, nos finais de semana na minha casa. Até hoje eu vendo esses produtos e dou as minhas aulas”.

 

Depois de muitas entrevistas Suneiva foi chamada pelo Dr. Milan para trabalhar no Porto, pela construtora Saneport, meio período. “Quando fiquei sem nenhum emprego eu estava tão desesperada que falava com todas as pessoas para conseguir um estágio, depois que arrumei esse começaram a surgir outras propostas. Primeiro foram três meses no período da manhã em uma empreiteira que estava com um serviço no Jóquei Clube, depois o próprio Dr. Milan me avisou que um amigo dele, o Dr. Eduardo, estava precisando de gente para trabalhar na empresa Freitas Guimarães, que estava prestando serviço à Estação de Tratamento de Água de Cubatão, foi aí que eu comecei a trabalhar das sete ao meio-dia, em Cubatão e das 13 às 17 horas no Porto”.

 

Há um mês a obra em Cubatão terminou e Suneiva agora está em período integral no porto de Santos. Mas continua vendendo produtos de catálogos, dando aulas de reforço e fazendo trabalhos de faculdade para colegas do bairro onde mora.

 

Como estagiária do porto Suneiva acompanha obras, faz medição do Porto, compra de materiais, mas à parte de medição é o que lhe dá mais prazer. “Eu gostaria de aprender um pouco mais sobre licitação e saber trabalhar com o Auto Cad (software de computação gráfica, que permite ao usuário desenhar e fazer projetos no computador)”.

 

A área portuária para a estudante é muito prazerosa, mas ela sente que ainda precisa aprender mais sobre o assunto. “Pretendo continuar na área portuária, mas isso só Deus sabe. Uma das barreiras que vejo na área de engenharia civil é o preconceito pelo fato de eu ser mulher, esse preconceito não é só no porto”.

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